Quando o tempo conta

A história dos smartwatches já data de algum tempo. Quem não ficou maluco por ter um relógio-calculadora, ou então com agenda E controle remoto? A sensação de poder fazer mais do que simplesmente ver a hora, o poder adquirido de realizar cálculos sem uma calculadora de mão E ainda por cima saber a hora (talvez até em mais de um fuso-horário) era algo extraordinário em tempos que celulares tinham visores de uma linha e sequer enviavam SMS direto.

Relógio calculadora

“Relógio Calculadora” por Winkels. Licenciado por CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons – http://bit.ly/1BaCZyd

Já em 2015, muita coisa mudou, e os smartwatches… bem, evoluíram. Falo com tanto entusiasmo pois tal evolução não foi natural, pelo menos em minha humilde opinião. O que houve foi uma verdadeira corrida do ouro para chegar a frente e abocanhar o mercado de relógios inteligentes, dada as especulações sobre um possível lançamento iminente de um relógio inteligente da Apple, em especial a partir 2013. O que vimos a seguir foi uma avalanche de lançamentos de relógios inteligentes dos mais variados tamanhos e modelos e problemas e interfaces. Em 2014, a Google lança o Android Wear, um sistema operacional para relógios inteligentes, que trouxe entre outras coisas os cards do Google para seu pulso, além de notificações, outros apps… e a hora, claro.

Nesse meio tempo, e em uma campanha de sucesso no Kickstarter, veio o Pebble. Desde sua primeira versão, em 2012, o Pebble não almejava ser o mais avançado smartwatch. Olha que estamos falando de 2012, aonde já tínhamos a possibilidade de criarmos dispositivos suficientemente pequenos para caber em um relógio. No universo de telas coloridas, multitoque e de alta resolução, o que o Pebble trouxe? Uma simples tela de LCD de 144×168 pixel (memory LCD, mais econômica) monocromática (preto ou branco meu amigo, nada de escala de cinza), espaço para pouquíssimos aplicativos, Bluetooth 2.1, 4 botões (sim, botões!), acelerômetro, watchfaces (carinhas do relógio) personalizados e só (fora o padrão : acesso a notificações e controle de música tocando no smartphone). Uau, vendo assim parece um fracasso, certo? Bom, queria ter um fracasso de 10 milhões de dólares arrecadados no Kickstarter [1].

"Pebble Original" por Pebble Technology - Licenciado por CC BY-SA 1.0 via Wikimedia Commons - http://bit.ly/1vxdpCC

“Pebble Original” por Pebble Technology – Licenciado por CC BY-SA 1.0 via Wikimedia Commons – http://bit.ly/1vxdpCC

Mas o que se sucedeu foi o que tornou o Pebble o que ele é hoje. Updates vieram, como Bluetooth 4.0, a liberação do uso de uma bússola perdida entre os componentes. Mas o que criou todo o hype em volta dele foi, em 2013, o lançamento do SDK. Com isso, desenvolvedores puderam criar watchfaces para o Pebble. Surgiu aí um fenômeno entre os relógios inteligentes. Lembre-se que isso é antes do boom dos smartwatches, antes do Android Wear. Para além disso, o Pebble também passou a permitir a execução de aplicativos em background (como monitores de atividade física), se tornando também um dispositivo de monitoramento de atividades físicas e sono.

Até hoje, este universo de relógios inteligentes me intrigava, principalmente por eu não gostar de notificações. Considero as notificações aquele amigo que não para de te interromper no meio de algo importante em sua vida (seja dormir, seja trabalhar, seja comer). Embora seja ótimo ser notificado, cada vez mais vejo que superestimamos a necessidade de notificações sobre determinadas atividades de nossos aparelhos eletrônicos. Uma mensagem de trabalho certamente é importante de ser vista o quanto antes (em horário de trabalho especialmente), ou a mensagem de um amigo. No entanto, eu não me importo em esperar uns 5 minutos para ver que meu celular está com 30% de bateria. Ou que existe tal produto baixou de preço. Ou que fulano acabou de curtir minha foto postada a 5 meses atrás. O problema com as notificações é que, em minha humilde opinião, seu comportamento padrão está errado. EU deveria escolher quais notificações me importam, quais deveriam ficar pra uma verificação posterior e quais eu não me importo.

O problema com os smartwatches atuais (ou pelo menos boa parte deles), é que tudo gira em torno de ser notificado e, por consequência algumas vezes, de responder tais notificações, não importando seu grau de importância para o momento. Eu não consigo aceitar isso. Em resumo: a interação com os smartwatches tem como ponto central as NOTIFICAÇÕES. E isso, especialmente para quem é distraído, é um tiro no pé. Por mais que eu seja entusiasta de novas tecnologias, não posso me dar ao luxo de ter um dispositivo que vai me atrapalhar (e atazanar) a vida mais do que me ajudar. Por causa disso sempre tive dúvidas quanto ao sucesso dos smartwatches enquanto dispositivos indispensáveis (embora seja uma palavra forte pra qualquer dispositivo eletrônico) em nosso dia a dia.

Hoje foi lançada uma campanha no Kickstarter para o Pebble Time [2]. Em resumo, é o Pebble com tela colorida ( embora apenas 64 cores), além de algumas surpresas, segundo os criadores. No entanto, o que mais me chamou a atenção, e o que tem sido pouco mencionado, é a nova interface, chamada simplesmente de “Timeline Interface”. A filosofia por trás da interface é bonita de se ouvir, e fica óbvia depois de ouvirmos. Pra que serve um relógio, senão para nos localizarmos no tempo? Sendo assim, um relógio fala sobre o tempo. Em um relógio normal, apenas temos o tempo avançando, segundo a segundo. E se pudéssemos olhar para o tempo em suas formas presente, passada e futura? É nessa linha que a nova interface do Pebble Time (e em breve dos outros Pebble) caminha. Por meio dos 3 botões a direita, podemos visualizar eventos passados (resultados de jogos, notas, calendários, emails, e outros), presentes (música sendo tocada, notificações de ligação), e futuros (lembretes, futuros eventos, e por aí vai). Veja que a nova perspectiva desloca o centro de atenção das notificações, para algo central ao relógio em sua concepção analógica: o tempo. Parece tão óbvio agora, não? Com isso, eu passo a ter controle sobre o que eu quero ver, e quando eu quero ver. A nova interface ainda não foi apresentada em sua totalidade, então é cedo pra tirar muitas conclusões. No entanto, fiquei muito feliz de ver esta que eu acho ser uma sacada de mestre da equipe de desenvolvimento do Pebble OS.

Visualizando eventos Futuros no Pebble - Crédito Pplware - http://bit.ly/1EOLwWD

Visualizando eventos Futuros no Pebble – Crédito Pplware – http://bit.ly/1EOLwWD

Espero fortemente que este seja o caminho dos próximos smartwatches. Vejo esta nova perspectiva mais próxima dos princípios pregados pela pesquisa de Douglas Engelbart, um dos grandes pioneiros em IHC [3], que travava do aumento das capacidades humanas, e não sua substituição (ou no caso dos smartwatches, a diminuição destas). Afinal de contas, não quero deixar de viver para responder a mil notificações, me perseguindo em meu pulso. O meu tempo conta, e muito.

Referências:

[1] Pebble Smartwatch (Kickstarter). Disponível em: http://www.kickstarter.com/projects/597507018/pebble-e-paper-watch-for-iphone-and-android

[2] Pebble Time (Kickstarter). Disponível em: https://www.kickstarter.com/projects/597507018/pebble-time-awesome-smartwatch-no-compromises

[3] Douglas Engelbart Institute. Disponível em: http://dougengelbart.org/

Anúncios

Faça comentários com sugestões, dicas, palpites. Ajude o blog e seus leitores!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s